I

Estive no Oriente Médio, visitei a Turquia

a Anatólia de antigas civilizações

solo primeiro de hititas, gregos, persas, macedônios

 

Povos que legaram suas ciências, artes, crenças

nações que estenderam seus domínios e um dia

se tornaram impérios

Cada qual se sobrepondo aos outros

em poder e fortuna

indo alterar a paisagem da cordilheira dos milênios

para em seguida se retrair,

nos abismos dos conflitos e massacres

o império romano dos cristãos

o império otomano dos islamitas

 

Onde as fortalezas de uns, agora são ruínas,

sobre as ruínas das fortalezas de outros,

pedras sobre pedras,

ainda que ali nos deslumbrem

os arcos e colunas na paisagem

 

Éfeso, a cidadela de dois mil anos erguida pelos gregos

tem ruas calçadas em mármore,

o palácio de Adriano, a biblioteca de Celso, anfiteatros

Agora, pó e relva cobrem os resquícios da vida de outros tempos:

moradias, cozinhas, adegas,

os banhos públicos, os templos e as estátuas,

deuses e deusas, ora cultuados, ora proibidos

As necrópoles e as glórias das conquistas guerreiras

são iguais memórias

 

Em Istambul, Topkapi, o palácio de Maomé II, o conquistador,

berço, moradia e centro de governança da dinastia otomana

por quatrocentos anos, assusta, com seu gigantismo e plasticidade

a Porta Imperial

a Porta da Saudação

a Porta da Felicidade

 

Lá estão os salões do trono, o vestuário dos sultões, os quatrocentos quartos,

o harém para mil mulheres, os jardins privados, o Tribunal das Concubinas, as termas,

os adornos de ouro e turquesa, as relíquias do profeta

a cozinha onde eram preparadas quatro mil refeições diárias

 

O palácio Dolmabahçe à margem do Bósforo

o califado então instalado na modernidade do séc. XIX.

A arquitetura e os interiores combinam

barroco, rococó e neoclássico ao estilo otomano

ao custo de 35 toneladas de ouro

ao fim da era dos sultões.

 

E por toda parte está o turismo ansioso,

em marcha febricitante sobre a história

de milhares de anos e povos.

 

II

Istambul, a cidade do Islã, onde o estado é laico.

Os bazares, os quiosques, as praças, os museus

os palácios, as mesquitas

são um acervo imensurável de riquezas e belezas.

Visões oníricas da história,

histórias dos sonhos de multidões sem fim

 

Em 2023, a megalópole efervesce, como em sono agitado

aromas, sabores, texturas, cores, arquiteturas

tapetes e véus, baklavas, kebab e sons eletrônicos

apontam

para um complexo mosaico de narrativas, culturas e forças,

sobre um solo que me parece movediço.

 

Cinco vezes ao dia, o muezim entoa o chamado

para a oração

do alto dos minaretes, torres altas e lindas

que capturam todo olhar

que assim, buscará a Deus.

 

No templo de Hagia Sophia, a Igreja da Santa Sabedoria de Deus,

imenso domo sobre o salão amplo e vazio de imagens e adornos

deve abrigar os corações esvaziados de divindade.

Na Mesquita Azul, as abóbodas maravilhosas, os azulejos e vitrais

translúcidos, festejam com a cor azul, o infinito.

 

Istambul guarda Constantinopla, a amada de Constantino

a mais cobiçada cidade do império romano.

O estreito de Bósforo aparta e aproxima o pequeno mar de Mármara

ao mar Negro, reparte a cidade entre dois continentes

 

O império de Bizâncio está nas artes

exige a transcendência do corpo, para a submissão ao divino.

O erotismo se sublima na suntuosidade de ambientes antigos,

nos mosaicos luminosos e sinuosos, na tapeçaria requintada e macia,

nas cores terrosas e quentes.

 

Ao olhar para o Bósforo, sonhei embarcações do mundo antigo

transportando frutas secas, alcatrão,

especiarias indianas, marfim, seda, utensílios de cobre,

algodão, turquesas, pérolas da Pérsia

 

Sonhei navios carregados de invasores

guerreiros seljúcidas assediando a fortaleza,

a vigília das noites armadas, o furor das batalhas,

a derrocada das muralhas de Constantinopla

e a fundação de um novo império.

 

Sonhei mercadores, estivadores e gente do povo

de folga à noite, à beira do fogo, de olhos para o mar,

comendo, rindo, contando histórias e dançando

as danças dos turcos.

 

Na rodovia próxima,

o terceiro milênio trafega ruidoso.

A Tecnologia da Informação é a imperatriz do novo império

a dinastia é digital

seu exército ainda não conhece fronteiras.

 

06/06/2023

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