Eu era pequena, o bastante para brincar de rodar a saia franzida do vestido novo, até que ela ficasse inflada como um guarda-chuva, ou um balão prestes a subir. Os pés tinham grande importância nesta performance, porque era preciso imprimir impulso e rodopiar, mantendo o ritmo, caso contrário, nada acontecia. Aí perdia-se a chance de ver passarem voando os coelhos, as sombrinhas e as flores, bordados que coloriam o vestido. Imaginação e fantasia era quase toda a beleza da vida nessa época de infância.

Uma destas cenas, me lembro bem, aconteceu na calçada da rua Arthur Alvim, 180, no Horto, onde eu brincava com outras crianças. Tinha vindo com meus pais, de Governador Valadares para Belo Horizonte, visitar os avós paternos. Assim que chegávamos, minha atenção de menina com não mais que seis anos, logo deixava os limites da casa e dos assuntos dos adultos, e se expandia para inspecionar a rua lá fora, onde reinavam outras meninas e meninos. Queria mais era ver se me enturmava.

A calçada em frente à casa do Sr. Minervino e Dona Chiquinha, já era território da criançada da vizinhança, e o trabalho de aproximação entre as partes, não era muito simples. Para que se diluíssem os olhares de estranhamento, e então partir para o que interessava, eram necessários convites diplomáticos de cá e de lá: Vamos brincar? Quer brincar de quê? – e também alguma demonstração de talentos. No meu caso, não eram especialidade as biroscas, embora admirasse, mas gostava de jogar finco de arame no chão de terra úmida, brincar de teatro e fazer muitas perguntas. Minha estadia entre os avós era curta – uma pena – e eu precisava perguntar muito, sei lá o quê.

Aqui tinha novidades, por exemplo, o clima. Acostumada com as altas temperaturas de Valadares, me lembro de estar sentada nos degraus da porta da cozinha, tremendo, surpresa com o muito frio de Belo Horizonte, e a avó me pôr nas mãos uma xícara quentinha de café com leite. Na sala da casa deles tinha um relógio com que cantava as horas sem errar uma, e também dava para se ouvir bem alto o apito do trem.

E havia o avô, operário na Rede Ferroviária, que narrava com alegria as aventuras de seu ofício: “Chamaram a gente de madrugada… fui mais os companheiros prestar socorro. A máquina era uma texaca, grandona… virou…”  Só muitos anos depois, fui saber que a expressão se referia à empresa fabricante de locomotivas nos Estados Unidos, Texas Co., e também fui compreender o que era trabalhar de turnos e ser convocado a qualquer hora.

Mas, geralmente o avô saía do serviço às 16h, e encontrava a avó junto ao portão de casa, atenta e perfumada aguardando.

As imagens tão distantes das visitas a essa casa flutuam como nuvens amáveis nas memórias que tenho do Horto de antigamente, e vão se entremear com cenas da viagem de automóvel percorrendo a rodovia 381 – uma estrada de terra, como se dizia – em obras desde sempre. Depois de um dia inteiro de rodagem, quando avistávamos a placa Sabará, que alívio! A via de acesso que nos levava à casa dos avós, tinha paisagem sombreada por muitas árvores frondosas e floridas; era bonita e plena de expectativas a meus olhos infantis. Para mim, Belo Horizonte significou por muito tempo, esta chegada ao Horto.

http://www.jornalnossahistoria.com.br/ – Jornal Nossa História, set. 2019

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