Entre alinhamentos e contrastes: uma leitura de O livro das linhas

Por France Gripp

DINIZ, João. O livro das linhas. Belo Horizonte: Caravana, 2020. O que seriam as linhas de um poema, segundo a alusão feita pelo título de O livro das linhas? O título e a bela imagem de capa evocam a geometria; e lembram o próprio autor, profissional de arquitetura, esse ofício de grande intimidade com ângulos, linhas retas e sinuosas.

Com o livro nas mãos, antes de lê-lo, já senti curiosidade de indagar em que medida a poesia de João Diniz, nesse livro, guardaria relação com simetrias e proporções. Seriam essas linhas, estruturantes dos vazios a serem preenchidos com a imaginação? Como dariam sustentação a ideias e sentimentos, e conformação a desejos líricos? Que direções as linhas-poemas tomariam para alcançar o leitor?

Enfim, quis investigar a arquitetura textual elaborada pelo autor nesse denso trabalho poético, capaz de causar em nós, seus leitores, estados de deleite e inquietação. Leitura feita e refeita, o propósito deste exercício é demonstrar algumas escolhas linguísticas do autor: o encadeamento das palavras em versos e estrofes, as sonoridades empregadas, os ritmos, as rimas, as figuras de linguagem, ou seja, os elementos que contribuem para os efeitos estéticos sensíveis vistos em O livro das linhas; além disso, apontar aspectos temáticos.

A série de poemas é inaugurada pelo reconhecimento da onipresença da poesia no cotidiano, e isso assinala o posicionamento do autor diante do fazer literário: “Há poesia na pedra/há poesia no vento (…) no caminho que instiga/ há poesia aflita”(p.14). E o leitor que ama a poesia, aí já reconhece seu território.

Estimulados por um “pincel faminto que avança (…) encarando os medos” (p.13), o lirismo presente convida-nos a partilhar o clima que ali se instaura, afiança garantias, porque as palavras são reconhecidas em sua potência de transbordamento de significações, e a necessidade que temos da poesia (embora isso seja fato não sabido não sabido por muitos), é nele festejada.

Percebo que a escritura de O livro das linhas se norteia por um princípio de concisão que consegue alcançar, a um só tempo, condensação temática e expressividade em nível elevado. A temática se desenvolve fundamentada, em geral, em contraposições, paralelismos, dualidades.

A primeira evidência de concisão é que os poemas têm versos de duas a cinco palavras, no máximo, e as estrofes seguem extensão de quatro a seis versos em geral. A economia de conectores discursivos parece característica marcante no estilo do poeta. Se em textos não literários, isso pode ser problemático, na poética, o procedimento gera efeitos lúdicos muito interessantes.

Assim, em O livro das linhas, muitos poemas são construídos com base em contraposições que vão de contrastes, antíteses a paradoxos, em sentenças de modo geral despojadas de adjuntos e complementos. Ora predominam nesses versos os sintagmas nominais, em que se destacam substantivos e predicados nominais; ora os verbais, quando os verbos de ação têm realçada sua carga expressiva.

A semântica rege a coesão e a coerência dos significados, e, aos poucos, nota-se surgirem  linhas de um modo de composição; junto, emergem indícios, representações, dados da filosofia de vida, ética e arte que alimentam o autor.

Selecionei alguns trechos para demonstração destes comentários.

Nos seguintes versos: “se pensou desenhe/ imaginou descreva/ entendeu aplique (…) “quer viver acorde/ pra se ter medite” (p.17) – o tema convoca à mudança de posturas individuais, e se concentra nos significados dos verbos de ação; a ausência de vírgulas entre essas orações verbais induz o deslizamento de sentido de um para o outro, estabelecendo um contraponto, e colaborando com a ideia de que, poeticamente, não há obstáculos a serem transpostos, quando se deseja transformações.

Há poemas em que se formula antíteses entre sintagmas nominais, como por exemplo: “idoso adolescente/ criança e senhor/ liberal comunista/ social conservador/ roqueiro sertanejo/ clássico sambista/ poeta e arquiteto/ músico romancista”.(p.56). Então a oposição, em versos como esses, aparece como possibilidade de reunião de contrários.

Ocorrência semelhante nota-se em: “arrogante desculpou/ mestre perguntou/ apegado dispensou/ guloso jejuou (…) num dia inesperado” ( verso que se repete três vezes) (p.33). Nesse caso, a antítese ocorre entre adjetivos e verbos, criando, a meu ver, uma tensão entre uma situação de estabilidade, para a de movimento propulsor de transformação.

Os temas abordados por Diniz sugerem uma ética que preconiza a modificação de comportamentos individuais, fato que, segundo deseja o lirismo do autor, venha a reverberar de maneira positiva, e possa produzir mais harmonia na convivência social.

Já neste outro belíssimo poema, a antítese cresce ao paradoxo, reforçada pelo emprego da oração adversativa: “fotografou mas não viu/ falou mas não pensou/ leu mas não entendeu/ (…) nasceu mas não viveu/ tocou mas não sentiu (…) um gesto não garante o resto” (p.69). Existe nesses versos contestação, protesto e, novamente, implicação a um desejo de transformação.

A constância das antíteses por vezes se dá com sabor de aforismos, ou de provérbios: “voz que muito grita/ não ouve/ gente que muito roga/ não cria/ asa que muito bate/ não pousa” (p.59). Outro exemplo: “Cuide-se/ para alegrar seus amores/ saiba-se/ para continuar aprendendo/ siga-se/ para não se perder no tempo/ cale-se/ para não dizer sem saber” (p.81)

Às vezes o poeta elabora antíteses como um jogo cruzado de ideias e palavras: “nenhum amor é qualquer/ qualquer amor é algum/ algum amor é melhor/ bem melhor que nenhum” (p.78). Nesses, os pronomes indefinidos em alternância de lugar sintático no verso (os paralelismos) e em repetição, fundamentam o tema que é bastante propositivo, como um aforismo.

Esse procedimento lembrou-me o cultivo do jogo de palavras e ideias vigente no barroco literário, certamente sem o gosto por exageros e preciosismo vocabular da época.

Outro bonito poema (p.23), trabalha com temas da fugacidade, fragilidade, incerteza, próprios da vida humana; proposta que também nos lembra o barroco. Em sua beleza, os versos consignam no plural dos substantivos, generalidade para as situações descritas. O emprego predominante dos verbos no infinitivo, confere a base ativa da contraposição entre as ideias em curso.

Vejamos: “gemidos da natureza frágil/ volúpias de acrobatas tontos/ fumaças do produzir aflito/ abismos do desejar volátil/ perigos do afirmar silente/ procuras do duvidar constante/ misérias do dominar humano/ carências do possuir mandante (…) passam por esta janela”. Nesse último verso, há a metáfora para a própria vida humana, isto é, sempre passando…

Conforme visto, contrastes, antíteses, paradoxos, elipses e preferência por paralelismos e dualidades, geradores de tensão, são elementos da linguagem literária que respondem, em parte, pelas belas surpresas nos versos de Diniz. A partir dessas observações, pude apostar que a obra de João Diniz guarda certos traços hereditários do estilo barroco literário.

E nos poemas também há os ritmos: atributos da marcação métrica assumida; muitas rimas e formas de  repetições que também provocam sonoridades e imprimem nuances de significação. O efeito melodioso é constante, e não somente no capítulo intitulado “linha melódica”.

Como nestes versos: “sem fazer promessas/ vamos seguir o passo/ sair desse poço/ sem asco ou canso/isso é tudo o que peço” (p.65). As aliterações de fonemas em som de “p” e “s” e as rimas vão contribuindo para a expansão do tema que é, mais uma vez, propositivo de ações.

E neste: “ evento mistério delírio minuto/ vivência volúpia período rompante/ efeito carência horário instante/ isso vai passar…” (p.39) – Nesse exemplo, as aliterações e as assonâncias abundam nos versos elaborados com sintagmas nominais, em que se concentram substantivos, e respondem por uma variedade de perspectivas. Ao longo do discurso, vão construindo uma certeza temática ao leitores, de que as dificuldades do momento, como toda a frustração e alegria  na vida, um dia cessarão – “vai passar”.

Neste poema, belíssimo: “qual a medida da pessoa?/ sua estatura seu passo/ seu alcance sua cara boa?/seu caráter sua dúvida/ sua ação que destoa?/ sua gana seu passar/ sua canção que entoa?/qual a medida da pessoa?” (p.48). O tema da valorização humana é desenvolvido com certa métrica, rimas recorrentes e aliterações que reverberam sons e ampliam significados do poema; a interrogação incita, convoca, e uma bela argumentação poética se faz.

Um poema representa, em especial, a formulação com base em paralelismos e, a meu ver, simetrias e dissimetrias. Em duas páginas espelhadas, o poema distribui dez estrofes de quatro versos cada, regularmente metrificados, com rimas abundantes. Nesse poema (p.84), todos os versos repetem a mesma exortação ao leitor imaginado: “me conta que não és um número/ me conta que não és um conto/ me conta que isso é profundo/ me conta que não és um sonho”.

Essa repetição sistemática produz ênfase, mantém o ritmo de modo acelerado, e gera expectativas que vão se concentrar ao final de cada página, com uma sequência numérica (de um lado crescente, do outro decrescente), que dinamizam ainda mais o poema.

Penso que os temas presentes nesse poema são relativos a ideias de integração, completude e afeto; ensejam uma narrativa em torno de um projeto de utopia, sustentada, nesse contexto, pelas contraposições entre termos alusivos ao universo matemático e ao tempo-vida, que nos despertam inúmeros significados : “me conta que foi dividido/ me conta que não vai faltar/ me conta que não teve resto/ me conta que pode sobrar (…) me conta que é na medida/ me conta que não é demais/ me conta que é breve o tempo/ me conta que não vai demorar ” (p.85). Assim, antíteses e anáforas sustentam a enunciação poética em favor do tema.

Aos poucos, no percurso de leitura de O livro das linhas, um canto de entusiasmo, de apelo à vida em sociedade, vai sendo compreendido como proposta do autor. São muitos aspectos interessantes a serem abordados na obra de Diniz, rica em recursos estéticos e de abrangência temática.

Entre linhas retas e curvas, tangências, divergências e convergências provocadas pelas palavras em versos, estão os ângulos de visão de mundo do autor. O lirismo extrapola o eu, mira a inclusão dialógica do outro e dos outros.  O pensamento-poesia de João Diniz é, principalmente, é um belo trabalho de sensibilidade poética!

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