Derivação ao vento: Meninos de São Raimundo

 

 

Derivação ao vento: Meninos de São Raimundo

Francirene Gripp de Oliveira

O poeta Bispo Filho está à deriva em águas largas e profundas. Sua embarcação é seu discurso, que sai a observar a natureza das margens e, ao mesmo tempo, a composição daquilo que a movimenta e a alimenta, como também a todos, as águas da linguagem.

Meu amigo Bispo Filho foi menino à beira de um rio que o provocou com sua mansidão enganosa, e sua paisagem sempre feita de espantos – ora belos, ora medonhos. Assim, a terra em que pisou pela primeira vez, imprimiu-lhe certas marcas difíceis de apagar nos lugares por onde esteve a caminhar, muito tempo depois.

A poesia que produz meu amigo reconhece a relação que pode ter um homem – e um poeta – com as marcas dessa natureza que de certo modo lhe coube por herança. Elas estão presentes nos seres e cenários que povoam os poemas do livro Meninos de São Raimundo: Derivação*, e, juntamente com outros aspectos igualmente importantes, constituem parte da matéria de vida que, pela reflexão poética, se tornou, textualmente, palavra plena de vida.

São os estados de humanização a sua volta, os interesses deste poeta. Os poemas – em narrativas, dialogias, descrições, questionamentos – são pungentes, são alegres, são tristes, são de beleza rara e densa!

E tal como a paisagem natural que imbrica terreno e rio – fato que desponta também em função do título escolhido para o livro, a poesia de Bispo Filho traz consigo duas propriedades especiais. A primeira, a presença de ocultos redemoinhos linguageiros, capazes de arrebatar o leitor, conduzi-lo a mergulhos por sinestesias e ritmos que ali estão a propósito de sensibilizar, e que são, na verdade, usinas movimentadas a poder de um intelecto muito cultivado.

A segunda qualidade destes poemas está na capacidade de – assim como o rio, estar ali, preso entre as margens, e simultaneamente, estar livre para nos levar até o mar. Ou seja, os temas abordados são caros para a análise da época contemporânea e enriquecem nosso olhar.

Meu amigo deriva ao vento. O vento é a poesia como fenômeno misterioso da linguagem – movimento essencial do ar indispensável a todo pulmão. Ele deriva a si mesmo e a todos nós! Parabéns!

Belo Horizonte, 24/02/2013

 

Referência

Meninos de São Raimundo: crônicas & poemas. Bispo Filho, José; Lima, Roberto. Belo Horizonte: Edição dos Autores, 2013.

 

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