Às voltas com as histórias de Rondó

Por Francirene Gripp de Oliveira
SANT’ANNA, Sonia. Rondó. Guaratinguetá: Penalux, 2021 (Contos)
O livro Rondó é uma bela coletânea de contos em estilo apurado e densidade dramática, capaz de capturar o leitor do começo ao fim. Os dezoito contos são acompanhados de um relato autobiográfico com características suficientes para que seja lido como ficção; uma surpreendente novela, talvez.

A respeito do título, achei interessante investigar o termo rondó, inclusive porque intitula também o primeiro conto. Soube que Rondó se refere a um gênero musical e a uma forma poética, em que a repetição é parte estrutural na composição. A essa recorrência proposta, novos elementos vão sendo agregados, o que faz com que a temática progrida de modo a sempre retornar ao ponto de partida, como se fizesse uma linha em espiral. Os efeitos disso são marcantes, tanto na música quanto na poética.

Enquanto desfrutava a leitura de Rondó, pude perceber nos temas, marcas desse desenrolar espiralado.
Já é preciso dizer que a linguagem verbal empregada pela autora transita com extenso vocabulário, e a sintaxe explora com folga muitas possibilidades expressivas da língua portuguesa. Tal domínio, responsável por efeitos precisos, como se verá adiante, não seria mesmo de se admirar, uma vez que Sonia Sant’Anna é romancista de bagagem, experiente domadora de palavras, personagens e enredos.

Em Rondó, os temas do amor, desamor e abandono, segundo seus variados formatos e contextos, demonstram como a valorização da banalidade e da frieza no mundo contemporâneo impactam as relações, geram modos de violência física e simbólica, uma vez sendo calcados na repetição de certas crenças e comportamentos sociais.

Nessas circunstâncias, a busca pela coerência existencial parece infindável, e o estado amoroso está sempre por acontecer. O ódio, então, travestido em suas várias figuras, pode ocupar os espaços esvaziados. As narrativas dessa autora, portanto, compõem um arco com temas das fragilidades individuais e dos laços interpessoais, investigam o lado obscuro dos meandros familiares e expõem mazelas comuns às experiências sociais cotidianas.

O primeiro e o último conto são expressivos dos empreendimentos amor/ desamor, em que as interações homens e mulheres se manifestam como ciclos de altos e baixos dramáticos e, às vezes, também, em suas prosaicas misérias. Assim, no conto Rondó, uma voz feminina narra um episódio de enamoramento que se mostra, afinal, esvaziado. Como afirma a narradora: “Uma história trivial, igual a tantas outras, de amor, traição e abandono, dessas que acontecem a cada um de nós pelo menos uma vez na vida”(p.12)

E em A partilha, tem-se a história do casal de mendigos que vive na praça, que se desentende e se separa. O título é muito irônico, tendo-se em vista a precariedade em que se dá a vida a dois, e a natureza dos bens a se partilhar: “O sacana levou tudo de bom, filho da mãe. Até a lata mais novinha” (p.86).

Assim como o casal de mendigos, e a mulher de classe média que narra seu caso com Mariano, os personagens de Sant’Anna parecem colhidos no trânsito da vida. Os contos são narrados na primeira e na terceira pessoa, o que também amplia as perspectivas do foco narrativo. Todos eles trazem marcas da espiral que atualiza o ciclo ilusão/desilusão; anseio/frustração; encontro/desencontro e, por vezes, a contraposição definitiva de vida/morte. Nada é gratuito na composição trama – personagem.

Os personagens, em geral, surgem em cena por meio da associação de aspectos conotativos entre objetos e ambientes. Assim, as sequências descritivas, configuradas em frases enxutas, captam o olhar do leitor e o inserem como participante da cena, ao lado desse narrador de olhar arguto.

Aos poucos, ali aparecem as figuras já em movimento, e o conto acontece, como em Hora do jantar: “Pratos, copos e talheres dispostos de maneira desordenada. Ao lado dos pratos, velhos guardanapos manchados. Bife, arroz, uma salada, uma jarra de água. Sentados à mesa, cabelos grisalhos, rostos enrugados, o homem e a mulher comem em silêncio.” (p.15). O narrador acompanha a vida de Alfredo e Mariana, e seus anos de vida conjugal em companhia da sogra que os reprime. Pelo enfoque do homem, é construída a realidade da desilusão e do embotamento sexual: “Finda a lua de mel, os meses passando, Alfredo perdeu a esperança de reconquistar o amor de Mariana.”(p.17)

No conto Telefonema, o foco narrativo acompanha a esposa que se descobre traída, e decide investir em suas próprias fantasias. Surge a personagem: “Faltava um botão no penhoar, que prendeu com um alfinete. Gritou com as crianças, já atrasadas para a escola, disse à diarista que já podia arrumar seu quarto e sentou-se para tomar café. O dia lá fora estava lindo”. (p.20)

No conto Cia. Ltda, o perfil de Eunice e seu meio social, e a frustração que ela vai experimentar com o marido, diante de iminente ruína financeira, começam a ser elaborados pela descrição no primeiro parágrafo: “Luzes, pratarias, copeiros de voz sussurrante. Um odor agradável de flores, perfumes caros e vinhos de boa safra. É aquele momento de beatitude quando todos se calam por alguns instantes, como se procurassem guardar na memória as iguarias que acabaram de saborear.”(p.80)

Já no admirável conto Vigília, a narrativa é estruturada, principalmente, sobre a noção de tempo – o futuro do presente e o futuro do pretérito. O enredo: um homem, depois de ter sido abandonado pela mulher, comete um assassinato. Em seguida, passa a noite acordado, sentado em uma poltrona, friamente revendo os acontecimentos recentes. Os excertos a seguir evidenciam, entre outros efeitos, como as escolhas temporais favorecem a que se instale no texto um clima de expectativa e tensão:
“Amanhã de manhã, quando o dia houver finalmente clareado e pessoas saudáveis em trajes esportivos caminharem ao longa da praia num infindável vaivém, quando homens de terno e gravata e mulheres em seus corretos tailleurs seguirem para os locais onde ganham o seu pão, e meninos e meninas em uniforme tomarem o rumo da escola, me verei forçado a deixar esta poltrona e a andar até o banheiro, onde, debruçado sobre a pia, lavarei o ardor dos meus olhos e o fel da minha boca”. (p.24)

“Se tivesse alguma sensibilidade teria se limitado a servir-me de instrumento. Eu a teria despido com indiferença, me deitaria sobre ela (…) Lhe entregaria todo o dinheiro que (…) enfim dormiria” (p.25)
Tipicamente, o futuro do presente é o tempo de projeções, e o futuro do pretérito de suposições – ambos de incertezas. Eles vão confluir, e se contrastar, nos dados do tempo presente que, no enredo de Vigília, representa a “realidade factual”, dada pela morte: “Impossível, porém, ignorar o vulto imóvel sobre o tapete, cujo silêncio me acusa e me pergunta: por quê? Por nada, respondo da poltrona. Porque ela não é você e porque passou sob minha janela naquele momento.” (p.25)

De acordo com esse ponto de vista, a dor de caráter individual justificaria o aleatório ato de matar, e a culpabilização da vítima. Nesse contexto, a desumanização se impõe como uma final negação de direitos.
No livro Rondó, há histórias que mantêm certas ligações entre si, ou podem ser lidas como continuação. Nesse caso, trocam-se as perspectivas, e um protagonista enunciador passa a ser o personagem observado pelo narrador. O especial conto Escrevendo José, e o outro, intitulado José, mantêm essa estreita ligação.

Em José, o narrador onisciente acompanha a rotina do protagonista de mesmo nome, em seu trajeto de ônibus até o trabalho e depois de volta para a mulher e seu quinhão nas funções domésticas. As considerações de José demonstram sua insegurança e pequenez: “Não se deve fixar os olhos os olhos em ninguém para não parecer impertinente, então é preciso fingir que se presta atenção à paisagem, aos números que se acendem no painel do elevador ou qualquer outra coisa.”(p.43).

José reprime até pequenos prazeres, em prol da mulher, a quem admira: “É muito econômica, não gasta dinheiro em manicure, revistas, roupas novas. Como é que ia ter coragem de gastar dinheiro em futebol?” (p.45) E ele se recusa a atender a necessidade de um amigo, por medo da mulher: “Chega a botar a mão no bolso. Não tem jeito, Elvira vai acabar dando falta do dinheiro e descobrindo tudo”.

Como se pode conferir, o personagem José foi tramado no conto anterior, Escrevendo José; narrativa que muito se destaca, a meu ver, pelo fato de ser constituída por um entrelaçamento enunciativo que simula abrir para o leitor a oficina da fabulação ficcional. A metanarrativa faz crer que se está, realmente, partilhando a “intimidade” mental da ficcionista. Afirma a narradora – escritora: “Um dia comecei a escrever um conto. Assim mesmo. Sentei-me diante do teclado e disse ‘vou escrever mais um conto’. Esbocei uma história, imaginei o personagem – um homem simples do povo. Mas o que é um homem simples do povo?”(p.39).

E as indagações prosseguem, típicas do ato da escrita, no propósito de elaborar a aparência de José, o pensamento de José, quais seriam seus desejos, se os teria. E a escritora encontra-lhe a esposa adequada, “uma mulher simples do povo”, “que se esfalfava lavando e passando roupa”. Então, de modo surpreendente, afirma a narradora: “com uma ponta de desprezo, comecei a descrevê-la. Como se fosse coisa mesquinha, uma ocupação menor, preocupar-se com camisas bem passadas.” (p.40)

Assim, direta e indiretamente se vai delineando o caráter de José como “fraco, covarde, sem vontade própria”. O trabalho de composição do personagem, entretanto, não estava pronto e, nesse ponto, a escritora se questiona: “talvez eu não saiba escrever contos”, ao que então, solicita a livre imaginação: “Fechei os olhos, imaginei um armário, prateleiras povoadas de seres os mais diversos, personagens.(…) Busquei José na prateleira. Veio alto, magro, usava bigode. (…) Feições indefinidas como devem ser as de um homem simples do povo”.(p.40)

Entretanto, um acontecimento inesperado vai fazer a narradora – escritora perder o controle sobre seu personagem. Como às vezes acontece a quem se põe a dar nascimento a seres de papel, José se rebela e desafia sua criadora: “Eis que, subitamente, José, em vez de cumprir seu papel e encenar para mim uma história, que eu então escreveria com palavras bem escolhidas – claro, eu sou uma autora -, José, como eu ia dizendo, sentou-se sobre o teclado e disse com toda petulância. __ Como é, sua autorazinha de merda? Me escreva.” (p.41).

Desse modo, José, um covarde sem vontade própria, antes de ser, já é, interferindo diretamente na produção textual. O enredo prossegue, levado por esse jogo de vozes instigante, e muito bem administrado pela autora Sonia Sant’Anna.

No texto de cunho autobiográfico, Recordações de uma velha senhora, Sant’Anna privilegia muito esse tipo de jogo enunciativo. A enunciadora conversa com o leitor, justifica certos procedimentos e dificuldades narrativas, antecipa desculpas pelas inconveniências, caso houverem, “fala de si” em terceira pessoa, enquanto interroga o passado de pai, mãe, tios, avós e outros parentes, pondo-os em vida, literariamente.
A partir da lembrança de uma certidão de óbito de uma criança sem nome, encontrada em um velho cofrinho de madeira, a narradora conduz o leitor por um fio de suspense, enquanto recupera a memória de várias gerações de sua família.

O passado familiar paulatinamente desvelado, faz emergir consigo fatos históricos e culturais da gente brasileira, essa nossa sociedade múltipla e complexa, que Sant’Anna descreve sem pejo e muito bem. As memórias da “velha senhora” são um relato que merece abordagem própria; talvez em outro dia.

Rondó, afinal, é um livro sobre o qual há muito o que se pensar, além de se desfrutar!

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