Brisa leve em ventos fortes: A resistência é uma brisa sutil

CHRISPIM, Everaldo. A resistência é uma brisa sutil. Belo Horizonte: Caravana, 2021.

Uma jovem ainda adolescente caminha ao lado do pai até o local onde assumirá seu primeiro trabalho, como cuidadora de uma criança recém nascida. Santinha é filha de um marceneiro “vicentino” convicto, e de uma dona de casa, ambos empenhados em criar os filhos conforme os valores de sua religiosidade. A família tem vida modesta e são escassos os recursos materiais a que estão habituados. A nova babá será impactada de modo indelével, pela visão da casa luxuosa e pelo perfil de seus patrões.

Nessa convivência, apesar das muitas diferenças, que demarcam limites e impõem exigências, a moça se toma de amores pelo bebê, e desenvolve uma dedicação especial por Netinho, a quem acompanhará durante o crescimento, e que perdurará na idade adulta, quando, então, passa à função de atendente em seu recente consultório médico. A biblioteca da casa é uma grande surpresa, e aos poucos as leituras operam transformações em Santinha.

Everaldo Chrispim é romancista de excelentes histórias e neste novo livro – A resistência é uma brisa sutil – ele confabula com os leitores sobre a complexidade das relações humanas e sociais em uma pequena cidade, onde a hipocrisia, o falso testemunho e a corrupção são práticas comuns, e os mexericos têm papel importante na provocação de forças antagônicas, que logo passam a manipular os fatos conforme interesses particulares ou políticos.

O foco narrativo em primeira pessoa conduz a funda imersão nesses episódios de intrigas, em notada verossimilhança, certamente é fruto da capacidade analítica e de observação do autor, assim como de sua inventividade narrativa. Nesse solo minado onde se movimentam os muitos personagens quase vilões, desenvolve-se a saga da protagonista, observadora atenta dos acontecimentos.  A reflexão a respeito dos conflitos lhe altera, pouco a pouco, as crenças. E o crescente e tenso confronto de Santinha é consigo mesma.

Já idosa, a narradora está a rememorar a própria trajetória, em busca dos começos, causas e circunstâncias dos eventos que marcam fortemente suas inquietações, arrependimentos, frustrações e decepções. Nesse contexto, a percepção sobre Netinho/Dr. Alírio se transforma, lentamente, em sombrio enigma pessoal que exige decifração.

A busca se inicia no tempo originário da infância, em que: “Tudo era limpo, claro, aberto, os dias sempre alegres, e não me recordo de dias cinzentos e cheios de injúrias” (p.9). E vai se findar quando a ilusão que estruturava sua vida, se desfaz por completo:

“existia uma perversidade que empurrava e não consentia. (…) O preconceito e a agressividade eram maiores do que eu supunha, e em gente nas quais jamais havia imaginado.” (…) A resistência sutil por mil e uma noites… Meu Deus! Ao fim da minha seiva restava uma sedução amarga coberta por um fingido pano branco. As licenças do afeto…Como poderia supor?” (p.273)

O processo de autoconhecimento e de descobertas sobre o mundo, é impregnado de  passividade, mas ainda assim, uma resistência sutil prospera; a resolução é vagarosa e penosa para Santinha.

A morte de uma idosa na fila do posto de saúde incita a ira do vigário e enseja a proliferação de discursos que responsabilizam, principalmente, o médico do plantão, Dr. Alírio. Um antigo conhecido de Santinha, Inácio, por quem ela nutria admiração desde criança, envolve-se no episódio ao pagar pela compra do caixão e discursar contra os médicos. Logo, vereadores, prefeito, delegado de polícia, comerciantes e associações se inflamam em posições pró e contra em geral.

E os acontecimentos prosperam  na cidade. Agora, a morte de um antigo jogador de futebol em um asilo, tem causa atribuída à ingestão do conteúdo de uma lata de sardinhas com validade vencida. A figura de Canela, até então esquecida, repentinamente se torna o epicentro de grandes protestos contra o tratamento dispensado aos idosos.

Acirrados embates verbais e afrontas ocorrem, incitados pelos desafetos dos políticos da situação e os meios de comunicação: “O Rádio Repórter mandou alguém ao asilo e foram firmes ao falar de alimentos estragados. Já existia o mote, faltava o autor. O programa criticou a prefeitura e sugeriu que ela seria a responsável (p.98).

Ao elaborar suas reflexões, a narradora oscila entre a alegria de defenderem Netinho e as desconfianças ao exame crítico dos fatos: “Eu fiquei surpresa; o que teria a prefeitura a ver com a sardinha? A confusão voltou com força, e cada vez mais era necessário encontrar um criminoso.” (p.98)

Logo, o alvo selecionado fica explícito: trata-se de Inácio, o comerciante que tem costume de doar alimentos ao asilo, mas que não compactua com certas práticas políticas a sua volta. Seus protestos acabam inúteis, porque, além do mais, é um homem negro bem sucedido: “__ Você tem visto? (…) o crioulo está ficando apertado. Fiz um meio riso. Baixei o rosto como se olhasse o tampo da mesa. Uma tristeza veio de mansinho. E eu gostava dele” (p.223).

Ao dar lugar e voz a essa intensa personagem feminina em meio a questões contemporâneas, Everaldo Chrispim também explora os ângulos de visão de mulheres que passaram o tempo de uma vida inteira, prestando serviços domésticos para uma família. Contexto que facilmente as condiciona a uma ambígua condição de intimidade, devedora de uma disponibilidade quase ilimitada, e que as leva muitas vezes a cultivar o silêncio frente a cobranças abusivas; em meio a relações de afeto que ali também se desenvolvem:

“O menino berrava como um louco, sentado no berço, vermelho pelo esforço e olhando o pai. Tirei-o do berço, falei em seus ouvidos palavras nossas, mas ele esbravejava (…) aconcheguei-o nos meus ombros, ele se acalmou, bebeu um pouco mais e acabou por dormir. A mãe saiu pisando duro.” (p.31)

Cenas completas – por vezes complexas – de uma vida familiar de classe média, segundo o ponto de vista da empregada doméstica Santinha, se mostram. Desde os rituais do banho do bebê, o embalo nas noites de choro prolongado, os procedimentos com alimentação das crianças, os cuidados com as roupas, a limpeza, o quartinho escuro e abafado perto da cozinha, enfim, toda a dinâmica de funcionamento interno da casa se materializa com grande efeito, graças às habilidades discursivas de Chrispim.

Um capítulo aborda as reflexões da narradora sobre a adolescência de Netinho, fase que dá origem a alguns dos “fantasmas” de Santinha. Trata-se de um embate entre sensualidades – a do garoto de quinze anos que é objeto do amor incondicional de sua cuidadora, e a da jovem mulher que se percebe reprimida em suas pulsões e que, subitamente, dá passos em terreno proibido:

“Havia terminado de passar as roupas dos meninos, e sentia-me abrasada com o ferro quente ao meu lado. Peguei uma cueca de Netinho e fiquei olhando o elástico frouxo que, provavelmente, já não lhe segurava na cintura. (…) Minha pele buscava pacificação e meu corpo pedia uma delicadeza que me arrefecesse. Havia uma espécie de furor que me vinha de dentro. (p.162) Netinho estava ali, na beira da minha porta. Não tive dúvidas, precisava fazê-lo.” (p.166)

Chama atenção, ainda, a extensa coleção de comparações e metáforas ao longo do texto, e que fazem parte da performance narradora da protagonista Santinha. As figuras de linguagem têm o poder de multiplicar e, ao mesmo tempo, dispersar os significados e simbologias de que são feitas. Na cenografia literária, funcionam como referenciamento a contextos e percepções de mundo, em conformidade com a constituição de realidade proposta pelo autor; ou seja, elas colaboram na construção da “personalidade” dos personagens, neste caso, da protagonista Santinha.

Muitas metáforas encontradas no romance têm origem em provérbios e ditados populares; porém, a maioria são aforismos certamente da elaboração criativa do autor. Presentes em abundância, essas imagens tonalizam poeticamente a prosa narrativa, por condensarem em si, aspectos de dramaticidade, argumentatividade, e até alguma ludicidade bem humorada. A variedade e riqueza, neste caso, estimulam a empatia dos leitores. Vale a lista de exemplos:

“é na leitura que pesco as tilápias que ornamentam o aquário dessa minha ocupação literária.”(p.34)
“Igual a estória do burro que carregava estátuas da virgem, e pensava que as reverências eram dirigidas a ele.” (p.43)
“o arrependimento sem virtude é como verniz em pau podre.” (p.62)
“ a resignação é irmã mais velha da experiência” (p.93)
“Dizem que o pote do silêncio é de ouro, mas pode ser ouro de tolo.” (p.94)
“A tristeza é um jardim empedrado onde não cresce nada” (p.96)
“a lata ocupava toda a foto, mas o vencimento saltava para fora como um grito”(p.103)
“Eu me senti envaidecida e pensei que os grandes discursos são como papéis brilhantes que ornamentam embrulhos de carne estragada” (134)
“No fundo, o homem não é flor que se cheire sem dar espirros; é Deus quem tenta melhorar o cheiro do homem.” (p.145)

Afinal, a obra de Chrispim é rica e densa em experiências de vida e de história cultural e social. Em outras palavras, é um romance que permite, e merece, análises sob diversos ângulos. A resistência é uma brisa sutil é um livro que, antes de tudo, oferece ótimos momentos de fruição aos leitores.

Francirene Gripp de Oliveira – 06/11/2021, BH, MG

One thought on “Brisa leve em ventos fortes: A resistência é uma brisa sutil

  1. Leonardo Costaneto says:

    Este é um romance de tom sutil, como anuncia o título, porque enreda o leitor aos poucos, na cadência das memórias de Santinha. Obrigado, France, pela generosa interpretação.

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