Certa vez, uma avó propôs aos três netos, de idades entre 5 e 7 anos, contar uma história. O dia tinha sido longo de brincadeiras, passeios e estrepolias diversas, e era hora de dormirem. Animaram-se todos com a ideia da história, acomodaram-se e, em seguida, um dos meninos iniciou o seguinte diálogo: “Mas vovó, a gente não trouxe o livro de histórias…”. Ao que prontamente retrucou a menina: “A vovó conta a história, ela sabe contar sem ler”. Daí logo o outro menino quis saber: “E é história de verdade?”. “Não! Não é de verdade!” – atestou com mais veemência a menina, comprometida em não deixar dúvidas quanto a fato tão importante – “Ela inventa a história!”.

Estabelecido isso, a avó ficou autorizada a contar uma história que não era “de verdade” – uma vez que não estava vindo de um livro; e mesmo porque não havia outro jeito. A sessão começou, e eles se interessaram. Sorte que o sono veio logo e salvou a contadora de encontrar o clímax e o desfecho para tal invenção de última hora…

O episódio exemplifica a percepção que crianças têm acerca do que seja verdade e não verdade, real e irreal, e ainda indica a especial necessidade que têm da ficção. Além de ser uma lembrança boa da convivência agradável que se pode ter com elas.

Pode-se dizer que essas crianças perceberam que a literatura ocupa um lugar diferente no mundo da linguagem. A ênfase na expressão “de verdade”, demonstra que há nas histórias conhecimentos, ou verdades, aos quais elas atribuem valor e muito proveito. Sem o saber consciente dos adultos, intuíram que a ficção tem estatutos próprios e apontaram o livro como o emblema do pacto entre autor e leitor; ainda que livro, daqui por diante, possa vir a ser sinônimo de tela virtual.

 

Belo Horizonte, 06/11/2012.